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Há pessoas que nos ensinam com livros, outras com teorias complexas e fórmulas enigmáticas. Mas há uma sabedoria que escapa aos manuais, uma inteligência que não se encontra em enciclopédias, mas que é forjada no calor da vida, entre o sacrifício silencioso e a coragem cotidiana. Essa sabedoria tem nome, cheiro e uma voz inconfundível: Dona Vanda, a minha velha.

Crescer ao lado dela foi assistir, todos os dias, a uma aula prática sobre resiliência e dignidade. Ela nunca usou palavras difíceis, mas suas lições eram profundas. Quando a vida apertava — e apertava muito, na Favelinha do Ibes, em Vila Velha-ES —, não era com discursos que ela enfrentava o mundo, mas com ação. Se o dinheiro era curto, ela esticava o feijão, tirava da cartola verdadeiras descobertas gastronômicos com o pouco que tínhamos, improvisava um jeito de manter o gás até o fim do mês e, acima de tudo, nunca deixava faltar afeto. Porque amor não era promessa, era prática.

Foi com ela que aprendi que o conhecimento verdadeiro não se mede por certificados, mas por impacto. E que o respeito não se impõe, se conquista — especialmente quando o mundo parece pronto para duvidar de você. Quando chegou a hora de escolher um curso superior, não houve pressão por uma profissão que me fizesse rico, nem o medo de que meu caminho fosse incerto. Ela olhou nos meus olhos e disse, com a simplicidade de quem conhece a vida: “Escolha o que te faz feliz, meu filho. Mesmo que seja pra ser pobre, mas que seja sendo feliz”.

E foi assim que escolhi ser professor, contra o conselho de meus próprios professores. Enquanto muitos diziam que “não havia futuro” na educação, Dona Vanda me lembrava que o futuro não é algo que se espera, é algo que se constrói. Ela nunca leu Paulo Freire, mas é a mais freiriana das educadoras. Ela sabe que educar não é transmitir conteúdos, mas formar pessoas. E o seu método é simples: exemplo. Eu a via tratando todos com a mesma dignidade, do menino de rua ao médico do posto de saúde. Aprendi com ela que a vida é um vestibular constante, mas a aprovação mais importante é a da nossa própria consciência.

No momento em que decidi pela Geografia, ela me disse “Se vai ser geógrafo, que seja HUMANO”. E não era apenas uma frase de efeito; era uma filosofia de vida. Ser humano significava ver além dos conteúdos, compreender os alunos como pessoas, ser uma presença significativa em suas vidas — porque era exatamente isso que ela é para mim. Ao ministrar minhas primeiras aulas, ainda adolescente, foi ela quem me disse que eu não precisava saber tudo, mas que precisava aprender a ouvir. Que a paciência era o maior segredo dos grandes mestres, e que o talento verdadeiro não estava no brilho do palco, mas na capacidade de transformar vidas.

Quando recebi prêmios como professor, quando meus alunos conquistaram vagas em universidades de prestígio, quando fui aplaudido em palestras, era o olhar dela que eu procurava na multidão. Porque só ela sabe o caminho completo, o esforço por trás de cada vitória. E mesmo quando o reconhecimento público veio, ela nunca se deixou impressionar. Seu olhar permanecia o mesmo, firme e doce, como quem sabe que os verdadeiros troféus são invisíveis.

Hoje, ao pensar em tudo o que sou — professor, gestor educacional, mentor —, sei que tudo começou com o que aprendi com minha velha. Com o exemplo de quem, mesmo sem títulos acadêmicos, sempre me mostrou o valor da ética, da empatia e da coragem. E se em algum momento eu me perder pelo caminho, é nela que reencontro o norte. Porque o mundo pode nos ensinar muitas coisas, mas o que Dona Vanda me ensinou não se esquece.

Logo, é através dos olhos e ensinamentos dela que entendo meu papel hoje. Porque sou, sim, o que sobrou de tudo que Dona Vanda me passou, das vezes em que ela me empurrou para frente quando o mundo parecia puxar para trás. Sou professor porque ela me mostrou que o verdadeiro sucesso não se mede pelo saldo bancário, mas pelas vidas que tocamos. Sou humano porque ela me ensinou que um verdadeiro educador é aquele que vê o outro além das notas e dos boletins.

No mais, que essa homenagem também alcance minhas outras mães — tias, primas, mulheres da família Francisco — que sempre me apoiaram e estiveram ao meu lado. Uma ajuda aqui, outra ali, mas sempre com amor. Em cada esforço dessas mulheres, eu enxergava uma rede de afeto que me ensinou que família não é apenas laço de sangue, é laço de cuidado.

E talvez, sem perceber, eu tenha me tornado a influência destas muitas mães, ainda que o papel crucial caiba a minha velha. Porque cada vez que uma mãe me confia o sonho de seu filho, cada vez que uma aluna encontra em mim a coragem que lhe falta, é a voz dela que ecoa em cada palavra que venho a proferir. É a presença dela que continua transformando vidas através de mim.

Feliz Dia das Mães, minha velha. Meu maior título é ser seu filho.

Obs.: como não poderia faltar nesta data especial, seguem duas tradições. A primeira é assistir “Forrest Gump” pela milésima vez ou algum outro filme que eu não esteja com vontade, mas que você adora… Segunda é ouvirmos o hino da banda capixaba Dead Fish, “Tango”, que ouvi quando tinha 12 anos e, ainda hoje, com 39, me arranca lágrimas.

Tango
Dead Fish

Foi difícil entender, impossível de acreditar
Uma vida devotada, embasada em um sobreviver

Mais que qualquer ideal, sobressai o teu amor
Não há ruas, partidos e regras para lhe deter

Mais que uma instituição, feita para deformar
Liberdade e emoção me permitiram sonhar

Tu és a vida real, e sempre esteve de pé
Nunca reclamou da batalha que é criar

Sociedade e discriminação, cabeça erguida a enfrentar
Nenhum patriarcado ou família te fizeram calar

Não há nada a provar, eu já posso entender
O que pode ser mais rebelde depois de você?

Forte, viva e a sorrir, sua vitória deve insultar
A todos que preferem te ver a chorar

Acredite, aprendi demais, seu silêncio constrangedor
Liberdade é muito mais que palavras a dizer

Gostaria de agradecer, espero um dia retribuir
Coração do meu céu, por favor, seja feliz!

Agora vem a tua vez, usufrua do teu amor
Sua prole sobreviveu, só resta agradecer

São Marias, Heloisas, Severinas
Bernadetes, Rosas, Marisas, Izauras
Valescas, Elianas e Martas
Mulheres fortes que sobreviveram

Uma resposta a “ESPECIAL DIA DAS MÃES: Minha Velha e Suas Lições que Nenhum Diploma Ensina”

  1. Avatar de penguintenderlyfc6387ea76
    penguintenderlyfc6387ea76

    Fantástico.

    Curtir

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