Anúncios
Anúncios

A inteligência artificial chegou à sala de aula sem pedir licença — e, talvez por isso, muitos docentes ainda não saibam muito bem o que fazer com ela. Alguns a veem como ameaça, outros como uma promessa milagrosa, e há também os que simplesmente preferem ignorá-la, como se sua presença fosse uma moda passageira ou uma distração fora de lugar. O problema é que não é nenhuma dessas coisas. A IA está redesenhando, silenciosamente, as margens da experiência humana e, com isso, reconfigura também as exigências da prática docente. Ignorá-la é escolher caminhar no escuro.

Por isso, falar sobre letramento docente em inteligência artificial não é um capricho nem um modismo; é uma urgência pedagógica. Letrar-se em IA não significa tornar-se um programador ou um especialista técnico, mas compreender, com lucidez crítica, os impactos que essas tecnologias têm sobre o conhecimento, a ética, a comunicação e, sobretudo, sobre os modos de ensinar e aprender. Não se trata de dominar ferramentas, mas de entender o espírito que as movimenta.

Se olharmos com atenção, veremos que já estamos inseridos em uma lógica de algoritmização da vida cotidiana. As plataformas que usamos para planejar aulas, corrigir atividades, recomendar leituras ou mediar avaliações estão permeadas por algoritmos que aprendem com nossos hábitos, nossas preferências e nossos silêncios. E isso vale também para nossos alunos, cuja forma de pesquisar, escrever, estudar — e até pensar — já se organiza, muitas vezes, a partir das sugestões inteligentes de um buscador ou das predições de um sistema. Ensinar hoje, portanto, exige compreender esse novo ecossistema de mediações.

O letramento docente em IA, nesse sentido, é também uma forma de resistência. Resistência à desumanização da educação, que pode ocorrer quando confundimos eficiência com profundidade ou automatização com aprendizado. É por meio desse letramento que o professor adquire critérios para decidir quando, como e por que usar uma tecnologia — e, talvez mais importante, quando não usá-la. Isso é autonomia pedagógica em tempos digitais: saber decidir com responsabilidade, e não apenas seguir tendências.

Mas essa autonomia só é possível quando há repertório. E construir esse repertório passa por debater temas como ética algorítmica, viés de dados, privacidade digital, desinformação automatizada, desigualdades tecnológicas e impactos cognitivos da mediação artificial. Não se trata de esperar por formações prontas, mas de inaugurar uma postura investigativa: o professor que se pergunta, que observa o mundo à sua volta com inquietação epistêmica, que se dispõe a aprender — ainda que a passos incertos.

Pensemos, por exemplo, em uma atividade de produção textual. Um aluno pode, com poucos comandos, gerar uma redação completa usando um modelo de linguagem. O professor que não compreende o funcionamento básico dessa ferramenta corre o risco de condená-la como trapaça ou, pior, de aceitá-la sem questionamento. Já o docente letrado em IA entenderá que a questão não é “usar ou não usar”, mas o que se aprende no processo. Ele poderá transformar esse cenário em uma oportunidade para ensinar sobre autoria, originalidade, pensamento crítico e uso ético da informação. Nesse caso, a IA não é vilã nem heroína, mas um pretexto poderoso para o exercício reflexivo.

Além disso, o letramento docente em IA é uma ponte entre gerações. Nossos alunos cresceram em um tempo em que a inteligência artificial está em suas casas, seus celulares, seus jogos, suas buscas. Eles têm familiaridade operacional, mas não necessariamente têm discernimento. Cabe a nós — educadores — ajudá-los a entender os limites, as armadilhas, os efeitos. E só podemos fazer isso se, antes, formos capazes de compreender esses elementos por nós mesmos.

Historicamente, os professores sempre foram agentes de mediação cultural. Somos aqueles que carregam o mundo às costas e o colocam, cuidadosamente, sobre as mesas de sala de aula. Ora, o mundo mudou. E para continuar mediando sentido, é preciso conhecê-lo — inclusive (e talvez principalmente) em suas dimensões tecnológicas.

Letrar-se em inteligência artificial, portanto, é um gesto de compromisso com a educação crítica, com a formação integral e com o próprio ofício docente. Não é um luxo acadêmico, mas um dever contemporâneo. E, como já dizia Paulo Freire, ninguém ensina sem, ao mesmo tempo, aprender. O futuro nos interpela — e cabe a nós escutá-lo com atenção e coragem.

Deixe um comentário

Tendência